sábado, 9 de fevereiro de 2013

Casa de Um Largado

O despertador toca...

Você acorda desejando não ter ouvido o alarme, torcendo pra que o horário esteja errado mas o relógio não mente. A tentação dos 5 minutinhos a mais na cama é grande mas você lembra que já incluiu o tempo extra e a prorrogação quando ajustou o alarme na noite anterior e a essa hora, o jogo já está pra ser decidido nos pênaltis. Como se não bastasse a pressa, você vê que não tem nenhuma roupa limpa do lado da cama. Na verdade, não tem nenhuma roupa que não esteja no chão, nenhuma além da que você usa agora. Pra piorar a situação: a cereja do bolo, ou melhor... a falta dela, um bolo então nem se fala... você sente fome e nem sabe se tem algo na geladeira além das embalagens vazias que você logo vai tirar pra jogar fora, ao menos assim que conseguir se lembrar que tem que tirá-las de lá. Nessa altura você começa a pensar se não rola uma desculpa, uma tia falecida ou qualquer gato que tenha "subido no telhado", um perdido, qualquer coisa que sirva pra dar um nó no chefe e te poupe do dia de trabalho, ao menos hoje que seja. Mas aí você lembra que ontem foi a mesma coisa... antes também. Num lampejo de vidência você se dá conta que amanhã provavelmente vai ser a mesma coisa já que você não tem a sorte de que hoje não é sábado, tampouco feriado. Não meu caro, você tem que trabalhar, você depende disso pra viver...

Nesse instante você senta e se dá conta de que entrou na maior roubada que te contaram desde que falaram que papai noel existia... morar sozinho não é tudo que alguém poderia querer. Você percebe que não tem mais mãe que deixe o bolo com a cereja em cima da mesa esperando nem a roupa passada que ela tirou do seu quarto antes que você jogasse no chão junto com as demais. Não meu chapa, pior, não tem nem pai que pague as contas pra você poder folgar o dia de trabalho com um "migué"dos bons, o nome na conta de luz é o teu e pior, nas outras também. Sem essa de 5 minutinhos. Sem essa de roupa no chão, geladeira vazia e matar o trabalho...

Você se dá conta que no armário tem um terno que só usou na formatura e quando sua tia faleceu... de fato, elas falecem mesmo, não só quando a gente precisa "faltar" no trabalho. Esse terno serve se der um tapa na poeira, ninguém vai notar. Agora você lembra da fatia da pizza de caixinha que sobrou de ontem, a mesma pizza que te salvou da larica no começo da noite mas você não deu conta de acabar sozinho, ela serve, pelo menos alivia. Por mais que tenha ficado fora da geladeira, você é guerreiro, vai sem medo, a fome é maior, no almoço você compensa, uma pizza não vai estragar assim, só por estar algumas horas fora da geladeira.

Melhor vestir logo o terno, comer a pizza de ontem e pensar numa desculpa pra ir trabalhar tão bem vestido o que acaba te lembrando que essa de ir bem vestido bem que cola pra justificar o atraso e a cara de sono afinal de contas, você veio direto de um velório de uma tia, uma distante, do tipo que não tinha contato direto com a família, o que for, o chefe não vai ficar no teu pé se você for de terno, a cara de sono compensa a sua atuação de segunda. Pensando bem, no fundo você vive bem. Como muitos outros, você é um privilegiado, mora sozinho, tem emprego e ainda pode matar a fome com estilo, não é todo mundo que come pizza no café da manhã, e daí que é de caixinha? Pior, você é chique o bastante pra ir trabalhar de terno, mesmo que a ocasião seja triste já que você "perdeu a tia" e por isso atrasou. Rapaz, você é independente, mora sozinho, com certeza é alguém a ser admirado e respeitado, principalmente se for pela guria da recepção... aquela ali já deve ter te notado faz tempo, você é que não percebeu já que tem tanta coisa pra se preocupar como tirar as embalagens vazias da geladeira ou ajustar o alarme 5 minutos mais tarde na manhã seguinte.

A essa altura a pizza já desceu com o copo d`água da torneira. Já está de terno, pronto pra sair, aí você olha pra trás e se toca que morar sozinho é isso aí... você não é respeitável a ponto de conquistar a donzela da recepção e nem um desesperado a ponto de perder o emprego por não ter o que vestir ou o que comer. Você é na verdade só mais um que caiu nessa de morar sozinho e agora vai ter que se virar com isso. Pode ser que amanhã a geladeira tenha alguma coisa pra comer e você tenha tirado as embalagens vazias ou que nem todas as suas roupas estejam mais largadas no chão. Pode ser que na semana seguinte você entre em contato com aquela máquina formidável mas tão imensamente complicada e perigosa que é o fogão e não precise comer pizza de caixinha já que agora pode ser que role um miojo. É meu caro, de uma forma ou de outra, você vai se virar, você não tem escolha, vai ter que aprender.

É aí que você se dá conta que hoje não era sábado ou feriado mas sim domingo... a pizza era o que tinha pra ontem já que não sobrou grana pra balada e que hoje era o dia que você tinha prometido que ia tirar pra lavar a roupa, dar um trato na casa e dar o primeiro passo nessa vida dura que a gente leva nas nossas casas de um.

Que seja...

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Quando a Evelise, a dona do blog, me falou pra escrever alguma coisa pro mesmo não levei muito a sério, achei que fosse coisa de namorada querendo que o namorado participe da rotina da garota, tipo "coisa fofa do namorado fazer", se é que você me entende. Moro sozinho desde 2006 e de lá pra cá eu me viro, sempre improvisando muito solto, do jeito que for. Adoro morar sozinho e tal mas se tem uma coisa que não consigo é fazer tudo certinho e bonitinho conforme as dicas que ela dá no blog. Adoro pizza de caixinha até hoje e se deixar compro pizza pro mês inteiro, compenso a eventual barriga correndo no parque. Lá em casa não tem roupa pelo chão, eu deixo tudo organizado no seu lugar, o problema é a poeira que come solta e não me dá trégua, nem ao menos uma vez por mês. O lance é que eu também vivo numa casa de um, o problema é que é a casa de um largado... Então daqui pra frente quando você ler alguma postagem minha, pode ter certeza que não vou dar dicas sofisticadas de limpeza, tampouco ensinar alguma forma prática de cozinhar algo que não seja um arroz puro ou estourar pipoca. Aqui eu vou dividir com você a dureza que é morar sozinho mas sempre lembrando que por trás de uma grande roubada, sempre vem uma grande aventura e portanto, boas histórias. Então é isso, boa sorte pra nós todos...

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